poemas, pedras e vícios

Larissa Marques

2011

(poemas)

da mulher cansada

manhãs douradas

que não suportam

o peso dos ombros

de uma proletária

da fábrica e dos amantes

a escrava da balança

a herdeira da pobreza

sem força para ser bela

solitária

entre o caos concreto

e coágulos de vida

não alimenta o céu

nem amamenta

e acalanta o dia

dorme no metrô

mas não lembra dos sonhos.

a(ssa)ssine

entenda de uma vez

antes que a ignorância tome conta de tudo

e revogue a coerência

e coma tudo que é real

entenda de uma vez

antes que termine o nó dos sapatos

e apertem seu cinto

e comam todo seu prato

entenda de uma vez

antes que lhe roubem a dignidade

e pensem por você

e sabotem seu ideais

entenda de uma vez

antes que lhe façam esquecer

e aperte a garganta alheia

e ela está à sua mão

vingança

por que não matar a semente

antes que caminhe para que seja fruto?

que matem a semente, então!

e se devo dizer

direi algo acerca da certeza dos paradoxos

desabrigam e desobrigam-me de ser coerente

as quadradezas tendem a encolher as arestas

e se tornarem círculos, ciclos

e se não disser nada

sobre os silêncios onde o carbono habita

ou onde os radicais livres não deterioram

ainda tentarão fórmulas perfeitas onde nada envelhece

ou perder o sentido

hão de rezar e acreditar que está à mão

a virtude e a clemência

e enfrentar o que afirmo

como se a luta já não estivesse aí

bem antes de todos nós.

verdades sitiadas

poderia contar de uma terra

devastada pelo medo e pela intolerância

das pedras que viram-se quietas por gerações

e que agora são arrastadas pela correnteza

isso não explicaria a violência da tempestade

da madrugada passada

e não resta nada além da prateleira

dos velhos retratos sobre a cômoda

e meus fantasmas a me observar

não devo enganar a mim mesma

dizendo que as portas tem trancas

e que a construção antiga

aguentará a ternura da solidão

e as orações em desapego

mas ainda olho os bibelôs

balançando suas cabeças

e os jingles de propaganda velha

onde o poeta pergunta incansável:

“o que faz você feliz?”

poderia romancear e responder reticente

que talvez o cantor da música que não fiz

ou que algum vagabundo que chamo pelo nome

me endurecem o pau que não tenho

ou um qualquer pudesse me fazer feliz

mas a lucidez torturadora me fez dispensar

meus filhos, meu nome e minha honra

e se nem minha casa me serve mais

o que há demais em confessar em silêncio

que não há felicidade aqui?

escarlate

enquanto todos os sonhos

se vão com o vento seco

e com as folhas avermelhadas

que parecem rir de bobagens

arrastadas junto com o pó

ela está ali convicta

imaginando que nada poderá

tirar a luxúria de seus olhos

que miram a vastidão horizontal

de um tempo tão ido, tão ido

pobre princesa rubra

assiste passiva sua imagem

espelhada em mil faces falsas

que gargalham entre si

e ela jura que é amor

queria voltar à inocência

que havia antes do vento

arrancar-me as folhas

antes das tempestades

levarem galhos e âmbar

rica princesa rubra

assiste passiva sua imagem

espelhada em mil faces de si

e gargalha entre imagens

e ela sabe que é amor.

a dobra do origami

vi então suas asasnascendo sobre seus braçostomando suas mãosenquanto outras criaturasde papel voavamesses seres alados se reuniamsobre seus glúteossobre sua vulvaerguiam-se em dobrasenfim eram saias que ocultavamum corpo marcadoum coração desfeitodois pés dilaceradosa musa rubra descansa sobre os mesmos olhosque passivamente feree ceganão entende os males que prolifera e pairaquase meiga e sósobre a terra devastada.

reclame

ainda olho pelas janelas

observando a vastidão da gleba

enquanto dedilho o velho jingle

os reclames só me lembram

de minha infelicidade

a propaganda da margarina

mostra uma família sorridente

a da cerveja só expõe

belas mulheres semi-nuas

e só me estimulam a ser

o alcoólatra que sempre fui

não devo me enganar mais

deixando minhas esperanças

em trancas de portas e janelas

ou nos cadeados do portão

prefiro afogar-me em bebida

a mesa está posta e vazia

desisti até de meus filhos

ou eles me deixaram

tanto faz

isso não diminui o pavor

da madrugada passada

a solidão da hora da tempestade

e os relâmpagos iluminavam

os velhos retratos sobre a cômoda

e meus fantasmas me olharam de perto

a lucidez torturadora só me fez

entender que nada me serve mais

que exijo demais das pessoas

tenho medo e sou intolerante

ontem rios transbordaram

e moveram as pedras velhas

e arrancaram tudo do lugar

até os visgos de minhas crenças.

fábula

a quem, eu um ditador barbudo

dono de uma ilha sem bermudas

em algum lugar surreal,

mandaria enforcar?

a quem, eu o perfeito vigarista

dotado de um arsenal de falácias

sobre palanques de pelancas,

protegeria da fome?

a quem, eu o servo das mesquinharias

pai de todos os velhos diabos

no inferno das consciências,

mandaria fuzilar?

só sei que veria abismado a construção

de um muro, no país que tomara como meu

e quem ficaria de um lado ou doutro

a ouvir os disparos coletivos e o tombo dos mortos?

por certos dias me pergunto

o que defenderia veemente

e quem estaria ali

para me aplaudir de pé?

a origem dos homens

e a tomaram sem amor

arrancaram-lhe todas as ilusões

e da maneira mais bizarra penetraram-lhe

a vulva e o ventre e deixaram frutos

o anúncio real seria admitir

que carrega o inferno entre as pernas

aliás, que toda mulher o carrega

tendo sido usurpada ou não

há quem já o tenha visto e vislumbrado

a violência inexata de um gozo perdido

os seios sugados, a pele arranhada

e depois o abandono no silêncio em fúria

e isso não é sobre a malícia do tesão

não é nada além da origem natural

de todos os homens

apague esse sorriso de canto de boca

e até que não reste nada a fazer

além de aceitá-la, engole o choro

que isso sim é uma imagem

sucinta e que perturba

e acredite que as lágrimas serão de pena

por não trazer o aplacar das sedes

ou o findar das dores

o amor

arrancou-me os olhos

os bicos dos seios

a vontade de sorrir

esfarrapou meus sonhos

tornou-me velha

e adoeceu-me devagar

arrancou-me a luta

os ovários

a vontade de seguir

esquartejou as cebolas

alguns tomates e o manjericão

e envenenou o jantar

serviu-me absinto

com um torrão de açúcar

e me puxou pra dançar

com uma faca para degola

assim o amor me fez ver o mundo

sem ter fichas pro futuro

sem almejar o mundo dos homens

sem alcançar minhas pernas

mostrou-me certas possibilidades

a terceira janela

no vigésimo andar

no trigésimo capítulo

estampou minha história quase feliz

num idioma desconhecido

naquele jornal de ontem

que embrulha o peixe, hoje.

HAR1 (agá. a, erre, um)

não entendo desse idioma estranho

colorido em ACGT

que se enroscam em tramas

nada além de vazios

não sou feito de dramas

nem de meus pés tortos

ou desse andar esquisito

nem mesmo desse sorriso

de boca de sapo

sou o colar que recebi

finamente costurado

em partículas miúdas

e meu começo e meu fim

estão tecidos nele

Hipérboles

as manhãs são hecatombes que reforçam

que não conseguirei o que quero

e jamais afugentarei essa acidez

subjetiva e atômica que carrego

em meu percurso ou em meu discurso

quis alcançar além das fronteiras

o mundo encravado no símio

do adjetivo mais profundo

onde os meus iguais

vindos da caverna escura

entendessem pelo menos

o que sou ou o que digo

e nada abala o passo das horas

os olhos esbugalhados ou vermelhos

as gravuras e as sancas

que atestam silenciosos

a inutilidade da palavra

a frivolidade do verbo

quis que por detrás dessas portas

houvesse tudo aquilo que nos falta

se é que nos falta algo

ou somos apenas reféns do excesso

cravando a sanidade e quadros

nas paredes da sala

arqueologia

definha a anatomia simples

da carne à terra

o pó do pó

e quem diria que foi essência

de algo tão passado

enterrado sob palmos de chão

e antes disso a míngua

e antes disso mantras

amores de perdição

jaz múmia intacta

enterrada agachada

num buraco seco

não te amo, não mais.

folhetim

se um dia me disser que me ama

poderia contar da minha gastrite

da dança dos periscópios antigos

das dívidas do cartão de crédito

e talvez compreendesse

que amor é frivolidade

é aquela bunda que balança

no Domingão do Faustão

talvez entenda que posso

afogar o que sente por mim

em dois comprimidos de rivotril

ou numa garrafa de vodca barata

e quem sabe por ser cética

nunca me diga e me deixe em paz

pois dessas tramas de folhetins

estou por aqui.

bardanas

as flores já não crescem como antes

e já desistiram do fato

de que tudo muda

mesmo os teoremas e fórmulas

a tabela periódica continua a mesma

mas os elementos que a compõe

por certo trazem pesos diferentes

desde que li suas palavras de hoje

não tome como plágio meus últimos poemas

meu nobre amigo,

não quis mesmo reescrever nada

nem ao menos te magoar

ao ler pressupomos tantos iguais

que por vezes caímos no erro

de tentar dizer o mesmo

com palavras diferentes

a tempestade desses dias

destruiu meu canteiro de bardanas

e o gato que dormia sobre a cômoda

está sumido há três longos dias

o desespero que me toma aqui

é o mesmo que vejo em seus “comerciais”

e quase cheguei acreditar que eram meus

os reclames que imprimiu ali

peço mesmo que perdoe minha cara no asfalto

e meus dizeres tão seus

não me perderei de novo

nas falas de metralhadora que me confiou

como as bardanas elas foram rasgada

e por pouco despojo reivindicadas

como palavras pixadas em banheiros públicos

desculpe mesmo sua amiga, não foi por mal.

tiragem

hediondos cartazes me contam

que nessas prateleiras

não existe mais aquele produto

do inverno passado

nada de etiquetas vermelhas

repercutindo vários “on sale”

ou olhos brilhantes em cifrões

acendendo milhões de centelhas

de “eu quero, eu preciso”

o produto saiu de linha

diz a atendente

era da coleção passada

serventia e função obsoletas

não há nem peças de reposição

e conclui a tal moça à boca miúda

que suas vendas não foram lá grande coisa

que o que sobrou foi incinerado

pois não trazia excelente qualidade

nem tão pouco de grande usura

impiedosa fala me confirma

que nessas prateleiras

eu não existo mais

que sou edição esgotada.

escolhas

 

vejo agora o quanto somos fúteis

e como nos jogamos do sétimo andar

todos os dias que condenamos verdades

e permitimos o império da superficialidade

condenados à uma sordidez desnuda

remendei a meia fina que me rasgou

na noite passada e na agulha

coloquei todo o esgarço de meu peito

pelos sorrisos falsos que cedi

e pela ânsia mal fadada que tenho

enfim, ela não me servirá mais

estou duzentos dias mais pesada

trezentas horas mais recalcada

e trinta e sete tijolos mais protegida

as anáguas não me ferem mais

nem tão pouco essa imagem de marionete

que pinto no espelho antes de sair de casa

e já não tenho mais mãos

se não essas que só servem

para me salvar de mim mesma

quantos vestidos de sonhos perfeitos

bordados à mão

para serem usados em noites de porre

talvez me pergunte porque

tantas saias e sapatos

se acabaremos nus e bêbados

no tapete da sala

ou no banheiro de alguma festa

bilhete e rosa

por hora não me cabe a meiguice

que me querem

a letargia e a falta de latitude

me fazem ser a barata dos sonhos

de Kafka

ou o retalho do falso santo sudário

avia-te que o sol não é esse

nem é essa via que te escapa

digo isso olhando nos meus olhos

e não acredito

não tenho moral para falar comigo

é certo que o umbigo é torto

e há uma calosidade pulando

para fora dele e poderia afirmar

que só aquele calo sou eu

sim, uma carninha de buraco

que procriou e deu nisso

mas enfim, quando for meiga

e suprir todas as necessidades alheias

espero que escolham bem as rosas

e o meu caixão.

meu filho vai ter...

(para Renato Russo)

coisas que nem sei

talvez tenha terceiro molar

o pé torto e gastrite

muitas das frustrações que tenho

e tantas quantas a vida puder dar

todas as angústias que alimento

um futuro que desconheço

não vai ter nome de santo

e nem o nome mais bonito

será a soma de tudo que sou

ou do que não sou

e de tudo que imito

será descrito de algum sonho

ou perpetrado em algum mito

meu filho vai ter...

as dores mundo

o sorriso incerto e inseguro

algo que não eu.

a menina que semeava papoulas

suas mãos passeavam dentro do saco se papel

cheio de sementes negras que mais pareciam

bolinhas miúdas ou pequenos ovos de inseto

e elas esvaiam-se entre os dedos feito tempo

jogava ao solo aqueles pontinhos pretos

como se fossem pontos finais

esperando milhões e milhões

de minúsculos recomeços

e sob visões de pupilas dilatadas

aquela criatura caminhava em campo aberto

o vento arrastava suas saias e ela se divertia

como uma besta fera sorria estridente

seus pés avermelhados pela terra

afundavam no morno que o sol deixava

e a vida dentro da própria vida era surreal

as sementes eram bombas sobre o chão arado

as mãos devotadas ao prazer despretensioso

do toque daquelas minúsculas cápsulas

refaziam incessantes os movimentos

de captura e liberdade suprema

mal sabiam da colheita.

Medusa

as pétalas de seus olhos desceram

por minha rubra face

instalaram-se entre minhas clavículas

como aperto de polegares em asfixia

ver o que vi em todas as outras

e não supor que era assim tão óbvia

só nos ferem os que amamos

mea culpa, não tomei nenhuma precaução

quebro uma promessa que fiz e peço

que me deixe agora

que não congele minhas resistências

nem estilhace o que restou

um espinho ainda está na garganta

não me olhe mais, nunca mais

quero permanecer pedra

por saber que mal maior é a esperança

taverna

quem dera esses homens contemporâneos

cheios de seus banhos e cheiros estranhos

entendessem a sujeira que trago nas veias

e ousassem essa fé que tenho nos subterrâneos

ali onde as horas inabaláveis caminham velhas

e esse excesso de fala não passa de baba

ali onde as portas são grossas e posso gritar

e ninguém há de responder

o que ainda desejo está preso

no curso retroativo do tempo

no passado podre e carcomido

lá no mundo das alcovas do século vinte

lá na fala de escritores do século dezenove

esses sim, me pareciam iguais

seres de olhos atrofiados para o dia

e treinados para a calada da noite

modernidade

não há avanços na vida humana

a evolução é uma desculpa esfarrapada

para que se abuse mais do que já é

por essência, excesso.

passeio público

avistei olhos perdidos

numa madrugada febril

não tinham ângulos

nem eram pares

eram milhares

e o céu desgrudou

como moléculas inquietas

os olhos se chocam

não numa visão caolha

ou reacionária

estavam longe de se retrair

posso sentir

ainda os olhares

penetravam-me todos

os poros e orifícios

posso senti-los

corrosivos.

falsa letargia

a mesma luz que me cega

pode ser a que orienta

o meu carrasco maior

é o meu melhor olho

não sei de que doença sofro

e devo estar me curando

não creio em verdade alguma

e vivo procurando

etéreo é o mundo que me rege

são tantas lutas

tantas faltas e culpas

quem me ampara e sustenta?

arrasto

a perfeição do homem

se alastra pelos tempos

e se agarra ao solo

feito semente nova

que quer germinar

seria o desejo de ser semi-deus

ou a onda ancestral do medo?

um ímpeto viril permanece

entre suas proles

e arrasta o mito inconstante

por eras e eras

em certa hora não correm mais

apóiam-se em bengalas de açocaminham devagar na ânsia

de ouvir ecos e o som do mar

(sete pedras)

ato I

pedra realidadede madrugadaembriagado de nuveme azul cobaltodormiaestático feito pedrasupunham-no mortomas insistente no sonhoresistiude diahomem-máquinapés engrenagenspeito-poliabraços-cordaumbigo-correntedurante a noitenão dormiarasgava-se ao meiobebida quentebarriga vaziapreso na terraerguido por sonhoque não veioobsoletapeça de reposiçãosubstituídano fim de estação.

ato II

pedra da loucura

“A única diferença entre um louco e eu,é que eu não sou louco.” - Salvador Dali

olhos esbugalhados

mão trêmula

palavra aguda

agulhando a garganta

fervia do peito

à face

numa febre

quase convulsiva

parecia desarmado

mas a verdade dura

serviria de escudo

e atiraria a loucura

na realidade

dos outros.

ato III

pedra prazer

mergulhou lasciva

em seu querer mais obscuro

o paradoxo de olhos fechados

vagou por mãos impunes

e armas eróticas

silenciosa mordia-se

na ânsia por dor

entregava-se a todos

com alma e peitos gastos

no seio esquerdo

alimentava o amante

e no direito um infante

com a ilusão certa

luzes do fundo do poço

olhos rasos e insatisfeitos

mais que masturbação

dos outros

menos que expiação de si

embutida de noites insones

ainda desejava

aquele que a desonrou

e coexistia com seu caçador

em seus orgasmos mais violentos.

ato IV

pedra silêncio

não em tempo longo

nem vão

o necessário

para alcançar

o êxtase do livramento

cai cego de si

nariz na merda

chafurda

sem sorriso inacabado

sufoca a palavra última

para curar-se da inquietude

volta aos olhos famintos

e imóveis

e calado

espera o impacto

da quinta pedra.

ato V

pedra esfinge

deposita sua confiança

em alguém?

se realidade

loucura

prazer

e silêncio

são convulsões

íntimas

como diferenciar

o bom e o ruim

sem referências?

seres não querem

decifrar-se

apenas devoram

e regurgitam-se

aprazes

o que há além

da dicotomia

monocromática

dos verbos

conjugados

em primeira pessoa

do singular?

ato VI

pedra revolta

feitio de galope

contra a involução

de ouvidos indignados

aflitos por se livrarem

da perturbação moral

ignoram a curva

o discurso amotinado

o engasgo mestiço

o novelo marginal

sedição maior

é língua fecundada

de palavra densa

e verbo roedor

e a arruaça prossegue

é atmosfera infame

de bocas sobreviventes

lavadas com sabão de quadro

delas ainda sobram caninos

e mordida aguda

certeira na nervura.

ato VII

pedra utopia

“Coloquemos aquilo que é utopia, aquilo que é o conceito, não o coloquemos em lugar nenhum. Coloquemos no amanhã e no aqui.

Porque o amanhã é a única utopia”. - José Saramago

naquela manhã diferente

quebrou suas ferramentas

não foi trabalhar

não construiu mais castelos

para onda derrubar

rasgou a bíblia

esqueceu versículos

de louvor a deuses surdos

e subiu num caixote

no meio do canteiro central

berrou palavras de desordem

num discurso ao proletariado

relembrou o instinto animal

o não-consumismo

o sobreviver em pequena escala

incitou o caos e a guerra

indagava aos ouvintes

quantos mais de seus filhos inocentes

entregariam à Igreja

ou ao Estado?

contradisse sua utopia insana

que remendava o culto

de que tudo vai dar certo

e extirpou a descendência

do não-ser

num momento sentiu-se livre

e em outro se perguntava

a liberdade existe?

(vícios)

estatísticas

pai,

nos meus primeiros passos

me disse:

“vai sem medo!”

e eu fui

livrai-me do pecado

calai-me a boca

e as estatísticas,

pai,

livrai-me do medo!

monções

não há argumentos neste lugar

só olhos vesgos de um mentir torto

tão verdadeiro quanto notas de seis

pois as de dois já existem

não peço nada além de sua presença

e nem assim se sente satisfeito

com o desprendimento grevista

sem platéias ou discurso inflamado

vermelhos, não de dor e sim de torpor

os lábios riem e mangam de repique

o piquete de elogios vazios 

e críticas destrutivas

acusa-me: "mentirosa, mentirosa"

como se ser falsário e ludibriador

fosse mérito apenas dos impuros

e cruéis de plantão

 

nunca tive medo das palavras atravessadas

cheias de desprezo e de escárnio

pois quem desdenha em algum momento

quer apenas adquirir algo com preço de lambuja

essa liberdade sonora que prega

é tão tênue quanto fumaça no vento

e saiba que nada se perdeu

é a velha lei da relatividade

ou talvez a farpa no olho do outro

estamos sempre presos a algo que desgostamos

ou que no mínimo não nos orgulhamos muito

e a maioria dos castelos são de areia

que a onda da realidade teima em derrubar

para quem não gosta de clichês

a vida ensina que poucos saem deles

e perdi a conta de quantas rimas pobres

habitam meus poemas de baixa qualidade

e não paro mais pra contar

  

já não me interessa quem é

ou de quanto espaço precisa

não temo estrelas ou buracos negros

como digo as coisas acabam sem deixar de ser

e mais uma vez me olha nos olhos

simulando uma quase verdade

como se já não conhecesse a marcha

aquela de arranque que precede a fuga

 

tantas vezes já vi outros aqui

fazendo o mesmo que faz agora

não sabe pedir ou implorar

mas se dá à demagogia verborrágica

do confronto sem causa

desaprendi de esperar

mas nada mais há além do tempo

e ele passa rápido demais

para que eu fique só olhando.

infalível

terra onde pouco

se vê

pois há apenas

tanger

das eras de entes

dos tempos idos

"olho por olho"

já não se tem dentes

água viva

seus olhos tomaram-me tudo

minha dignidade

minha identidade

essa sensação de proteção

as sazonalidades

suas palavras levantaram

meu vestido

devassaram minhas anáguas

não deixaram nada

para queimar

suas mãos levaram tudo

as cores do mundo

o lirismo da poesia

e reduziram-me

do pó ao pó

nostalgia

a imagem de teu corpo

não me fere mais como antes

mesmo que a morada inerte

insista em gritar

o espelho da cômoda

reflete meu olhar nocivo

foi-se o tempo que esperava

trago o cigarro entre os dedos

é tudo que preciso

há um certo brilho na caduquice

como se o esquecimento fluísse

pelas veias cansadas e sonolentas

não há mais o alvoroço matutino

não há mais o revoar vespertino

e a noite desce lenta.

insônia

espelhos matinais acusam

os tristes olhos que herdei

de meu pai

que estão arregalados

e vesgos perdidos de ódio e medo

inquirem pecados capitais

acompanham o raciocínio dos cigarros

que despertam cada vez mais cedo

esquecem das transições

do fogo para cinzas

da fumaça à imensidão

em segredo varam noites

madrugadas tão iguais

repare que a sentença é acordar

acordar e acordar

repetidas e repetidas vezes

revirar na cama

e me contentar com o que

me enfiam goela abaixo

e cu acima

poderia mentir

dizer que estarei aqui

esperando por você

que aceito sua inconstância

e que distâncias não apartam-nos

dia após dia

poderia compactuar com sua posição

dizendo que sou forte e resisto

confirmar minha capacidade de superar

de recuperar nas adversidades

noite após noite

nesses tempos aprendi

a chorar com desespero

a não me disfarçar mais em embustes

e mesmo no desvario ser real

eu após eu

saiba, meu amor que só

o sol é assim resiliente

nasce além de sua vontade

e vem absoluto e insistente

imune a suas verdades

superfície

impassível insistia em não me sorrire vidrado em seus pensamentosmal percebeu-me enquanto a madrugada friaentrava pela porta da salae tomava os cantos vazios em nósquase tudo limpo e em seu devido lugarcom exceção das superfícies lisas e úmidase dos olhos famintos se perdemem meio ao vento sinta o quanto estou molhadae deixa a cordialidade para depoissinta em cada poro meu a faltaque trago de tiquantos mergulhos aindapara que enfim esteja submersopor inteiro, por algum tempodentro de mim?

o guardiãovejo o que não queriao tempo de escravidãoconfirma-me arroio preservado dentro da amargura do ventoele repousa onde descansoonde o alvorecer desce e trilhas se perdemencontrando novos caminhosele guarda minha alegriaperfura-me peito e olhosfaz quedar leise quebra meu silênciojá não sussurra-me e soprapra bem longepor hora priva-mecerta hora me libertaráe livre sendo partirei.

porque me tomas?

de maneira tão prolixacom essa força na estrutura?como se fosses durae ao mesmo te dobras em meu cerne venal?explícita revelas o risocomo quem quer mordere doas a rachadura como quem perpetra o caosilícita te entregas em becosnada nobres e de beleza surreal!

boca da noite

está além do aparentepor dentro do expurgoem autos de santas compadecidasa mordedura de palmas e murosgengivas de lua cheia ou mordidaextirpando rosário nos dentesa dor de palato e pagã feridadobra sua fala e aceita o furoque na cárie se sente o latejaracredita gota por gota em calvárioque na falta se tem o orar.

a letra A

agora é uma luz pálida

agora não tenho olhares gentis

essas mãos frias, inertes

trazem um corpo estrangeiro

é o século do silêncio

e os olhos novos mal vêem

onde estará meu pai?

onde estará minha mãe?

onde habitarão meus irmãos?

os carros não param

seus faróis acesos

a marcha acelerada

em vias sem semáforos

levam apressados para casa

e a vida está vazia

não há calor na noite

nem lembranças de acalanto

chove, só chove

e os canaviais bailam

é o túmulo de meu pai

é o abandono de minha mãe

agora é uma luz pálida

agora não tenho olhares gentis

e essas mãos frias, inertes

desistiram das palavras

é o segundo do meu silêncio

abnegação

entendo que tudo sucumbe ao fogoquem poderá dizer antiga lamaque habita esse corpotão nobre linho e rasgada famaencobre o pecado sem sorte algumaentregue a homens tortosde olhos ocos sem fortuna

aceito que tudo sucumbe ao fogo

além do vazio da alma

e do flagelo da carneo silêncio habita no tutano do ossotrazendo caos e fúriapara quem vivia na calma

entendo que tudo sucumbe ao fogovi a salvação em seus olhos mourosque no vazio inerte lambiam meu riso

roubavam meu couro

silêncio, vício e ócio

em nossa camaaceito que tudo sucumbe ao fogo

um corpo ferindo outro

pela luxúria de ambose ambos se deleitam

tecendo fúria e corte pelo prazer do escambo

a plenos pulmões

(para Maiakovski)entre os livros da prateleiraencontrei meu passadoe consagrações para o alémdescobri-me uma tagarelarecordei das falas repressoras de minha mãee das palavras de incentivo de meu paimal sei dizer se algum estava certomas sei dizer das lixeirascomo elas nasci com uma quedaum leve pendor para a sarjetabecos escuros e fétidosmeias furadas e para a decadência lembro-me ainda das cuecas samba-cançãopenduradas no varal de minha avóe do primeiro sexo analsem sabãoe nem me olhe com essa cara de repressãogosto de agredir olhosjá que os ouvidos são acostumadoscom palavras de baixo calãoe tenha certeza que o jornal é piorbem pior que minhas palavrinhas imundasputas e infiéis são rasgadas de orelha a orelhatodos os dias, mas parece que não são humanasninguém se importa com os cães sarnentosou com as goteiras do domo centralquem há de olhar a propriedade alheiae se agarrar à ordenha de gravatas?pintem os cabelos e os olhos de pretopois os vestidos são frágeis e podem puiramarrem os tornozelos para que os escravospermaneçam à vista e cativosé preciso calar o jovem que se rebelavejam quão fundo é sua crençasaibam quão lúcida sua vidraçase nada der certo cortem sua goela

não peço que bajulem os críticosou que cortem suas unhas antesda ceia de Natalmas peço que calem sua bocae iremos felizes suportar o luto do escritor vagabundo que ousoue vistam-no de branco para ressaltaro que não foi ditoontem fui até o velho casarãoo mesmo onde passei minha infânciae nada lá era como antesnada lá era mais meu.

silencio o ontem

o corpo pede exílio

e a garganta horizontal

já não quer arranhar

e nem se converter

 

 

quem sabe assim os garrotes

corrompam o torque cervical

de maneira eficiente

e o silêncio flutue 

paralisante e tétrico

 

 

um certo cansaço toma conta

de meus atos asfixiados

talvez eu me esconda nas falhas

que cometi no passado

 

 

ou me guarde eterna

em mim mesma

de modo gradual e doloroso

para silenciar o ontem aqui

 

 

quem sabe...

Fantasmas de Goya

o mundo se calou

e as explosões de cores idem

monocromático

mesodramático

endométrio de amada

virada ao avesso

Goya, que te sobre as sombras

e os ecos das palavras

que não escutarás mais!

fundiu-se em figura e fera

qual quem sangra sem corte

violentou-se em silêncios

pois seu coração

fez-se fragmentos de bombas

da guerra dos outros

Goya, que te sobre as sombras

e os ecos das palavras

que não escutarás mais!

e se não bastasse todos

os espectros que o seguiam

em suas horas de tormenta

percebera suas imagens nuas

sendo arrastadas em carroça

queimada no dia do mito

Goya, não adianta chamar!

contratura

acena com o pécheio de micosesprovenientesde queixos caídose babação por nadaisso que vendem como curaem garrafinhas de isotônicoé melaço misturado com clichêe que não me sobre nemo bagaço dessa caianamandem-me o álcoolque nele afogam-seas necroses dos loucossó ele faz regurgitaro que não pode maisser digeridobebam, bebame vomitem-mecontra-musa dá azia perfura os intestinose desagrada polidosnão que eu seja poetaque desacredite o amormas como publicitáriaconheço propaganda enganosaEXTRA! EXTRA!o amor existe, existeé gozo puídoé reclame repetidoé corno encefálicoe fala de traído amar é para todos!amar é para tolos!

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